April 17, 2008


quando vi, já tinha virado a garrafa. e, por mais que tivessem me avisado, eu nem me importei com a procedência da bebida. fal-si-fi-ca-da, mas forte... amargo! bom! só que agora passou a euforia e a dor de cabeça já tá vindo. agora é esperar a vertigem passar e fugir do bar, da tentação. eu vou pagar a conta, que já tá alta demais, lavar o rosto e tomar um café... se é que sobrou troco.

April 13, 2008


everyone loves drama! paixõezinhas têm que ser complexas, têm que dar errado. só prestam mesmo aquelas histórias nas quais temos certeza que a thalia atuaria... alguém já percebeu que nunca dá certo quando tudo dá certo? coisa simples enjôa, ora bolas. não sou tão vivida assim, mas já vi de quase tudo nesse mundo: irmã com irmão, gato com cachorro, mulher com padre. se for me tomar como exemplo, já me apaixonei por diversos tipos (cada um mais frustrante que o outro, que conste nos autos). um com namorada, um com esposa, uns que tinham, digamos, os mesmo interesses que eu. pelo mundo afora, já vi até caso de homem trocar mulher por vaca, mas eu nunca soube de alguém apaixonado por um monera. e ainda olham pra minha cara inchada de tanto chorar por paixonites que não deram muito certo e dizem 'a vida poderia ser mais simples'... vocês, certinhos, não me enganam! querem é estrago, mas não largam a máscara do convencional. :x

April 09, 2008



chegara do colégio mais uma vez com a típica cara de poucos amigos. de fato, deveriam ser poucos os que ousavam se aproximar. sorriso naquele rosto era coisa rara. e mais raro ainda era o movimento dos lábios acompanhar a alma e transparer no olhar. os tais poucos sorrisos tinham muito mais crueldade por trás do que se poderia esperar de uma criança de sete anos. largou os sapatos na soleira da porta e correu, ainda de meias, para um canto da sala. e ficou lá sentada, numa posição por demais defensiva para um ser humano, parecia um bicho de tão acuada. pôs-se a fitar uma aranha que lutava, em vão, contra a sua própria teia. quanto mais agonizava, mais se afastava da remota possibilidade de se libertar dali. a garota observou a batalha da aranha contra ela mesma, os olhos refletiam uma cavernosa perplexidade. sentiu certa empatia pelo bichinho. poderia ser esmagada por forças superiores a qualquer momento, estava presa às teias tristes que havia tecido para se proteger dos outros e se fosse comparada ao mundo, seria tão insignificante quanto aquele pequeno aracnídeo comparado ao aposento. era demasiadamente pequena e os gigantes não seriam complacentes com ela, nunca haviam sido. era como a alice, só que sem coelho, sem razões pra ir seguindo pela estranheza afora. a aranha era amiga, reconhecia naquela quase-ser marrom cheio de patas sua impotência. queria encontrar em si mesma, agora, a resignação. então foi deitando, lentamente, no ártico chão da sala. ao sentir sua espinha encostar na superfície gélida deu um suspiro e apertou os olhinhos. foi se entregando. e se entregar era tão bom...


April 02, 2008

re-jei-ção: do latim 'rejectione', ato ou efeito de rejeitar; recusa, repulsa.
sempre que os devaneios vão de encontro a essa palavra, me vem à mente a primeira desconfortável lembrança de não-pertecer. era uma daquelas tardes chuvosas, em que o céu ficava com aquele tom triste e o pátio de cimento, tonalidade tão infeliz quanto a do tal céu, transformava-se numa pequena lagoa. eu ficava ali, sentada no canto, enquanto todas as outras crianças pareciam se deliciar com o infortúnio celestial. na terceira série eu já tinha percebido que nunca me encaixaria: pertencia aos pólos e aos pólos, não pertencia mais ninguém. de repente, não era mais a primeira da fila, não era mais a menorzinha que precisava pegar na mão da professora pra não perder o caminho. tinha crescido e agora era a última, a desproporcional, a assimétrica. tudo era pequeno e eu havia me tornado incapaz até de me perder. ao final da tortuosa marcha de volta para a sala, parecia ser a única que não havia sido tragada por uma onda de mar furioso. 'seca' era exatamente a palavra que poderia me definir em tal circunstância. seca por fora, por não ter tido nenhuma amiga que me puxasse pela mão pra correr por debaixo das bicas de improviso. seca por dentro, nem, ao menos, conseguia me mostrar triste por ser tão deslocada. 'professora, desliga o ventilador. tá TODO MUNDO molhado e tá fazendo um frio...' 'mas e eu, tia viviane? eu não me molhei! não me comportei como uma bárbara que não tem chuveiro em casa. estou seca, estou com calor, compreende?', quis dizer e nem disse. paciência! era sozinha demais, nem minoria eu conseguia formar. mesmo não tendo proferido uma palavra de revolta sequer, a professora pareceu ler as frases se formando na minha mente. me olhou, cúmplice, com aqueles olhos verdes, sardinhas salpicadas em volta, e disse: 'e lá fui eu que os molhei? vai ficar ligado, sim'. sorri pra ela, que pareceu ter entendido a minha gratidão. quanto alívio, não tive voz e fui ouvida! mas naquele mesmo dia em que me acudira da rejeição, me fez provar o amargo gosto da exclusão infantil. 'trabalho em grupo'. aquela junção de palaras me fazia estremecer por dentro. era sempre a mesma coisa: as melhores amigas se juntavam a um par de outras melhores amigas e um grupo se formava. e outro. e outro. e eu... sentada ali, naquele meio, rosto queimando do ridículo. queria gritar 'E EU?!', se já falasse palavrão ia querer gritar 'meeeerda, e eu, porra? com quem eu me junto nessa merda?', mas já sabia que a humilhação seria oito vezes pior, caso demostrasse me importar. não suportaria uma humilhação tão amplificada. então, melíflua, sorri 'posso fazer só? me arranjo bem com as minhas idéias'. e pude. fui ficando só, crescendo só, brincando só, correndo só, chorando só. me tornei uma solidão. acostumar com companhia foi difícil. meus amigos eram os livros, o piano, o dálmata, o diário, o computador, as palavras-cruzadas... éramos 7. 'professora, eu já tenho um grupo!'.

March 25, 2008

esperou, esperou, esperou. o coração pulava feito um menino ao completar a coleção de carrinhos. ainda assim, fingia que não se importava. só se decepcionava, e como! e como era ruim, e como era fácil se decepcionar! se pudesse, se trancaria num quarto escuro. nele, só entraria música. mas não podia, fazer o quê? chorou, chorou, chorou. quis escrever, nem conseguiu. mas será possível que até isso ele tinha conseguido roubar? chorou mais um pouquinho. então lembrou do sonho em que o passarinho preto e amarelo ia fugindo. quanto mais ela perseguia, mais ele queria distância. enquanto buscava, desesperadamente, o carinho do pássaro fujão, um outro lhe implorava carinho. olhinhos brilhantes de quem havia sido abandonado. quis voltar pro sonho e afagar quem merecia. não conseguiu. nada fazia sentido e sabia que ela mesmo havia perdido as peças do quebra-cabeça.

a casca das pessoas não importa. não importa mesmo. veja bem, nem a casca do pão importa. eu mesma, tiro. conheço muita gente que também não come. e nunca soube de um caso de pessoa que deixasse miolo de lado e fosse comer só a casca. só a casca não vale nada, fica por fora só pra proteger. às vezes, nem pra isso serve. eu me lembro que quando era pequena e voltava do colégio de ônibus, gostava de sentar nas cadeiras altas. eu ficava distante, sem ouvir uma palavra daquelas milhares que o meu pai dizia. cada pessoa que entrava, era uma casca nova. eu analisava, tirava conclusões, sabia de cada detalhe da vida só pelas cascas. hoje, pensando nisso, percebi que não. que sabia eu sobre aquelas pessoas? nada. só via a casca. e já disse, de nada vale a casca. é amarga, é escura, o lado ruim fica por fora. acho que o pão tem casca porque, no fundo, não quer ser comido. aliás, quem quer, né? do mesmo jeito que a gente não quer ser engolido pela morte, o pão deve ter medo dos nossos dentes afiados. criou a casca por isso, achando, coitado, que as pessoas iam desistir de acabar com ele, se sentissem o fel da casca na primeira mordida. acho que as cascas das pessoas tem função parecida. a gente não quer proximidade. a gente quer um outro distante.

March 24, 2008

ficava sentada, querendo dizer alguma coisa, mas não dizia. calava até o que deveria ser proibido calar. fitava aqueles olhinhos pequenos, desenhados à mão, e jurava para mim mesma que, um dia, não importava quando fosse, não esconderia nada. que dia mais distante, nunca chegava! nem o dia, nem o ponto. ficava ali, olhando e desviando, o olhar e as vontades. olhava pela janela, para o livro, para a porta, para qualquer coisa que não fosse a coisa que mais merecia a atenção. parada solicitada.

a teve ligada em algum telejornal repetitivo só pra encher a sala de presença. presença que ela, tão compenetrada em sua leitura, não conseguia dar ao ambiente. esparramada no sofá, com as longas pernas finas jogadas pra cima, tentava concentrar-se somente no livro. quando havia se tornado tão difícil se concentrar? merda! não se sabe como conseguia deitar-se naquela posição, só se sabe que deitava. contrastando com a imobilidade do corpo, a mente estava agitadíssima, se contorcia, dava voltas naquela adoidada cabeça e sabe-se lá onde mais. estava ali e em milhares de lugares diferentes ao mesmo tempo. 'chegam pessoas de mais variadas classe socio...', 'nunca sentia a vida monótona...', 'foooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooon', 'mas será que? acho melhor saber de uma vez por todas...', tic tac tic tac tic tac'. tv, livro, freio, buzina, música, vento, motor, pensamentos, relógio... mas concentração já havia sido item mais fácil de achar no supermercado! parou, sentou, respirou fundo. o barulho da respiração ecoava alto como a briga entre os acordes nos carnavais que passou no interior quando menina. precisava saber, mas não tinha certeza. o que era pior? aquele aperto no peito que talvez não fizesse sentido ou a convicção? existe certeza boa, mas também existe certeza ruim... ai, deus! era melhor saber ou não saber? não sabia. aliás, sabia sim, sabia que não podia mais com aquela tamanha dúvida, era fato. a dubitação corroía, corrompia... como doía aquela lástima! ah, como doía! decidiu-se. caminhou até o envelope, com cuidado e com um mar se preparando para escorrer pelos olhos. sabia que ali se encerraria a dor do não-saber, mas poderia começar uma pior. abriu, o coração aos pulos, aos galopes, já bem longe do peito, perto de plutão, coitado, que nem era mais planeta. leu até o fim. era ali que estava escondida a concentração, afinal? por fim, soube.

March 21, 2008


eu acho que acabou. sinceramente, acho sim. todos aqueles sinais que apareciam em todos os lugares foram sumindo de tal modo que, se é que ainda existem, são imperceptíveis. pra te falar a verdade, ultimamente, os únicos sinais que eu ando vendo são aqueles perto do meu peito e os semáforos (que sempre estão fechados, nos dias em que eu mais preciso chegar rápido). sem mais músicas, sem mais relógios marcando hora e minutos iguais, sem mais qualquer coisa besta que lembre você em todo lugar. a vida é assim mesmo: basta um novo porre pra curar uma ressaca e eu já entornei a segunda taça de vinho.

a chuva vinha se formando, o céu se tornava cada vez mais sombrio com aquelas nuvens escuras borrando as bravas estrelinhas que ainda ousavam tentar brilhar. estavam opacas, tão ofuscadas pela crueldade das nuvens que se tornava óbvio o fato de que haviam morrido há tempos... o melancolia tomava conta do dia frio, enquanto o fraco odor do cigarro trazia lembranças trancadas num armário escondido da mente. a nicotina dava um conforto tão desconcertante que era difícil de explicar, e o exasperado sentimentalismo invadia tudo com aquela amolante noção de passagem do tempo. a varanda havia sido inundada por gotículas geladas de uma chuva lastimosa. definitivamente, teria sido um dia péssimo de se viver, não fosse aquela lua... todo aquele estado mórbido de tristeza se dissolvia com a cena. estava cobrindo boa parte do céu, iluminava as casinhas desordenadamente amontoadas no morro. os pontinhos de luz vindos delas pareciam tão insignificantes ao tentar lutar contra aquela claridade maior, que eu senti pena deles. o dia queria começar a raiar, mas não teve coragem de expulsar a bela imagem do céu. preferiu ficar escondido atrás do monte, apreciando, extasiado. não seria justo tentar descrever como se apresentava a lua, nenhuma combinação de palavras existentes poderia explicitar para alguém como ela estava. o fenômeno merecia todos os olhares tortos desse mundo torto, mas os ponteiros do relógio já marcavam as cinco horas, poucas almas estavam de pé naquele gélido momento. aquela lua deve ter salvo a vida de algum depressivo sazonal que desejava a morte depois de um dia tão frígido, deve ser o tema de todas as canções que se apresentarão nas rádios nos próximos 300 anos. aquela lua me deixou imobilizada. eu teria morrido apreciando-a. eu estaria lá, agarrada àquela imagem, até agora, não fosse a incessante buzina do táxi, ansiosa pra me separar do meu mais intenso flash aesthesis. caminhei até o carro que me obrigou a sair do transe, com lágrimas que se misturavam a chuva fina e insistente. olhei mais uma vez para o céu, na esperança vã de que aquela lua nunca mais fosse desaparecer. eu não me importaria em viver eternamente num fim de madrugada chuvoso, se eu pudesse ter aquela imagem no céu pra sempre. ao vê-la esmaecendo a cada passo que eu dei, tive a certeza: aquela lua só se fez tão bonita porque eu esqueci meus chinelos na varanda. foi pra salvar meu dia que ela apareceu ali. e, ao perder minha atenção, perdeu a vontade de ser a mais bela das luas. o dia, decepcionado com o fim do espetáculo, começou a impor sua luz azul clara no céu cinzento. por fim, amanheceu.